
Rock, Medo & Delírio em
Las Vegas
Por Cristiano Bastos
"Um
protótipo de Deus: muito esquisito para estar vivo,
muito raro para estar morto". A epígrafe, extraída
de uma fala do filme Fear and Lothing Las Vegas (1998)
– no Brasil, Medo & Delírio em Las Vegas
–, sintetiza muito bem o que significou a personalidade
e a obra do jornalista escritor Hunter S. Thompson para a
cultura pop, para a literatura e, sobretudo, para a renovação
da linguagem do jornalismo. No dia 20 de fevereiro de 2005,
aos 67 anos, Thompson suicidou-se com um tiro na cabeça,
na sua casa no Colorado, EUA.
O longa-metragem Medo & Delírio é
uma adaptação do livro homônimo de Thompson,
Fear and Loathing in Las Vegas: A Savage Journey into
the Heart of the American Dream, publicado na década
de 60. Ao agregar ao gênero jornalístico aspectos
ficcionais e passagens dementes de sua própria biografia,
Thompson foi pioneiro do Novo Jornalismo, que renomados escritores
como Gay Talese e Norman Mailler popularizaram. Mas o estilo
de Thompson ficou conhecido com outro nome: "jornalismo
gonzo". Nele, faz de si mesmo um protagonista essencial
da narrativa: "A ficção é baseada
na realidade, a menos que você seja um artista de contos
de fada", afirmou Thompson em 2003.
Não há dúvida de que o jornalista foi
um sujeito raro – especialmente, esquisito. Sua maneira
transtornada e confessadamente drogada de levar a vida, chega,
às vezes, a preceder o seu próprio legado literário.
No início da década de 60, antes de se tornar
conhecido, o jornalista viveu no Brasil uns poucos anos como
correspondente do Brazil Herald, um jornal de língua
inglesa, editado no país. No Rio de Janeiro, aprontou
algumas das suas. Foi preso, certa vez, por praticar tiro
ao alvo em local público. Passou a conversa no delegado
de plantão, mas se entregou quando deixou cair do bolso
um monte de balas de revólver. Apesar da curta estadia,
as reportagens que fez por aqui já primavam pelo gênero
gonzo.
Na ida para o Brasil, de passagem por países da América
do Sul, enviou uma carta para o editor do Brazil Herald,
com o seguinte relato gonzo: “Estou no limite da insanidade.
Enfraquecido pela disenteria, atacado por moscas e vermes,
sem correio, dinheiro ou sexo. Perseguido 24 horas por dia
por ladrões, mendigos, cafetões, fascistas,
agiotas, loucos e bestas humanas de toda espécie”,
relata o jornalista na carta. Quando retornou aos EUA, escreveu
sobre gangues de motoqueiros e viagens químicas em
Las Vegas – as aventuras que estão descritas
em Medo & Delírio, sempre em primeira
pessoa.
No irriquieto filme de Terry Gillian (de Brazil, o Filme
e Os 12 Macacos), diretor egresso da trupe
do Monty Phyton, quem vive o papel de Hunter S.Thompson –
que usa o pseudônimo de Raoul Duke – é
o excelente Johnny Depp. Dr. Gonzo, o transtornado amigo que
o acompanha em suas "viagens", é encarnado
pelo também ótimo Benício Del Toro. Tobey
Maguire é apenas um pobre infeliz que pega carona com
a dupla de perturbados e fica a mercê deles. Com absoluta
certeza, o papel mais absurdo de toda a carreira do ator de
O Homem-Aranha. O elenco conta ainda com as participações
especiais das atrizes Cameron Diaz e Christina Ricci.
Não é tarefa fácil relatar a descrição
que Gillian conseguiu obter, em imagens, da insanidade, da
psicodelia, da drogadição e, sobretudo, da comédia
que materializou em Medo & Delírio. Só
assistindo para crer. A diversão é garantida.
A história se passa na virada dos anos 60 para os 70.
O contexto é a interminável guerra do Vietnã,
os ideais da época, dilacerados, Nixon no poder...
Marca o fim do sonho e o início do pesadelo americano.
Nesse ambiente de confusão e desesperança, Raoul
Duke e Dr. Gonzo saem para fazer a cobertura jornalística
de uma corrida de automóveis. Com o porta-malas do
conversível vermelho abarrotado de substâncias
de todas as espécies, de mescalina, heroína
e barbitúricos de toda a sorte, a substâncias
mais vagabundas como álcool e éter, eles as
engolem freneticamente enquanto tomam o rumo de Las Vegas.
Têm início inúmeras situações
insólitas de paranóia e alucinações.
E muito riso.
Rock & Delírio
A trilha sonora contempla algumas músicas que fizeram
a cabeça de Thompson, um notório apologista
do consumo de substâncias alucinógenas de todos
os tipos. Como a emblemática White Rabbit, que surge
em um dos momentos mais caóticos e irreverentes do
filme. A canção, do grupo Jeferson Airplaine,
grande ícone do rock ácido dos 60's, é
uma das principais composições do rock a versar
sobre o tema psicodelia em todos os tempos. Sua letra, de
cujos personagens são Alice e o Coelho Branco do País
das Maravilhas, embalados sob o efeito de cogumelos alucinógenos,
pode ser interpretada como a canção de ninar
mais onírica já composta, pela força
das imagens que sugere. A música aparece num instante
de total alucinação de Benício Del Toro,
empapuçado por um coquetel de drogas das mais bizarras.
Deitado na banheira do quarto do hotel, pateticamente ele
implora ao parceiro para que arremesse o tape-deck quando
a música atingir o seu ápice. Apesar de Somebody
to Love, outro libelo do Jeferson Airplaine, aparecer no filme
– durante uma reconstituição de um show
da banda, quando Duke se dá conta de que os tempos
estavam finalmente mudando –, ela ficou de fora da trilha.
Mas a jornada psicodélica prossegue com as suítes
Drug Score (Pt. 1 - Acid Spill), Drug Score (Pt. 2 -
Aorenochrome, the Devil's Dance) e Drug Score (Pt.
3 - Flash Backs), de Ray Cooper, que acompanham os personagem
nas horas em que estão seriamente enlouquecidos. Combination
of the Two, do Big Brother & the Holding Company, é
uma pérola psicodélica pouco conhecida da banda
que acompanhava Janis Joplin e, Magic Moments, do crooner
Perry Cuomo, é a típica balada para bebuns que
levam a vida a torrar grana nos cassinos de Las Vegas.
Uma curiosidade é um grande sucesso de 1970, Mama
Told Me (Not to Come), do Three Dog Night, um grupo proto-heavy
metal que tinha como maior preocupação o entretenimento
do que passar "mensagens cabeça". A letra,
composta pelo caipira Randy Newman, vem já na primeira
estrofe com a transgressora proposta, muito pertinente ao
caráter químico-etílico do filme: "Quer
colocar um pouco de uísque na sua água?".
Outra redescoberta foi ter incluído One Toke over
the Time Is Tight, do Booker T. & the MG's, entre
as músicas escolhidas. O Booker T., banda que tinha
na sua formação brancos e negros e que tocava
soul music típica da região de Memphis apenas
com órgão, sax e guitarra, foi o símbolo
da gravadora Stax, concorrente da Motown na década
de sessenta.
A trilha ainda revela outras relíquias: a canção
Line, da dupla de folk rock Brewer & Shipley;
She's a Lady, hit da grande e grave voz de Tom Jones;
o beat For Your Love, dos ingleses do The Yardbirds,
banda que revelou nomes como Jimmy Page, Jeff Beck e Eric
Clapton. Também há espaço para velhos
estandartes, como Tammy, na voz de Debbie Reynolds,
atriz principal do clássico Cantando na Chuva, e emoção,
com a pungente Get Together, dos The Youngbloods.
Há também lirismo country em Expecting to
Fly, do Buffalo Springfield, do qual surgiram os músicos
que integraram formações de grupos como Crosby,
Stills, Nash, & Young, Poco e Neil Young & Crazy Horse.
Quando sobem os créditos, como não poderia deixar
de ser, afinal, o filme encerra ao som de uma versão
punk dos Dead Kennedys para a festiva Viva Las Vegas, que
Elvis Presley imortalizou em um dos seus filmes. Foi em Las
Vegas que o Rei do Rock terminou a sua longa carreira marcada,
assim como a vida de Hunter S. Thompson, pela genialidade
e pelos excessos mundanos.
Cristiano Bastos é jornalista e um dos autores do livro
Gauleses Irredutíveis – Causos e Atitudes
do Rock Gaúcho (Editora Sagra Luzzato).
Serviço: Medo e Delírio em Las Vegas
Autor: Vários Artistas
Ano de Lançamento: 1998
16 músicas
Preço médio de importado: U$ 10,99 |
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